domingo, 28 de setembro de 2014

378 - A ilusão do saber (JORNAL EM DIA)

Disse o filósofo: - Só sei que nada sei. – Quem dera ter compreendido essas palavras na primeira vez que as ouvi. - Uma visão diferenciada da realidade me fez caminhar em paralelo a sociedade desde os tempos de minha meninice. Fui induzido pelo eu sagaz a driblar meu complexo de inferioridade herdado da infância, elevando assim meus potenciais a ilusão do status perfeito unicamente a saciar minha carência de autoestima. Talvez por uma década, pensando ser imaculado artista, segui na arrogância de um ego inflado, sob os reflexos da enganosa certeza de um nobre conhecimento, algemado assim a um destino repouso nos berços da ignorância.

Certa vez, em tempos de faculdade, voltávamos de van após mais uma noite de aulas quando um assunto foi levantado, o amor. Eu, sempre o poeta apaixonado, comecei a discursar algo mirabolante sobre as luzes do romance eterno, baseando-me em íntimos e imaturos pensamentos, rebatendo qualquer indício de discordância a minha tese demasiadamente equivocada quando, notando a singela arrogância em meu posicionamento, um de meus amigos me apontou seu vasto dedo, dizendo palavras que nunca seriam esquecidas: - Adrian, você tem que tomar muito cuidado com uma coisa... A ilusão do saber. – Antes que eu pudesse processar o sermão alguma garota da van nos cortou expondo suas ideias, sufocando completamente as palavras anteriores. Mas havia bastado. Aquilo foi uma semente que seria regada em lágrimas de frustração e anos mais tarde daria seus frutos de sabedoria.

Você já parou para pensar o porquê do muito que fazemos não obtém sucesso? Porque algumas coisas não vão para frente por mais que insistamos? Porque os nossos feitos, subjetivamente maravilhosos, são desprezados pela maioria? A resposta pode ser muito simples: Porque não fazemos direito! Ou não sabemos como o fazer.

O ser humano tem uma seria tendência a maximizar a si mesmo a fim de se colocar em um patamar diferenciado dos demais; a eterna busca do eu especial, o sonho da exclusividade alimentado por uma síndrome de vaidades e orgulho registrada em nosso DNA. Por esta razão passamos a fazer do singelo brilho uma mãe-estrela, ao pensarmos que aquilo que fazemos bem é melhor do que o fazer de todos, ou melhor do que muitos, quando, talvez, a realidade é que nem o fazemos corretamente.

Por orgulho, possa ser que essa “ficha” nunca venha a cair e talvez o homem siga sua vida sempre andando em círculos, jamais chagando a lugar algum. Todos temos grandes habilidades ou um dom especial, mas talvez eles sejam como diamantes. Esta pedra preciosa só se torna realmente admirável após um processo de constante e cuidadoso lapidar. Antes ela é apenas uma pedra bruta, disforme e perfunctória. Apesar de já valiosa, sem seu lapidar ela não tem atração alguma; é apenas uma pedra que você certamente chutaria durante uma caminhada.

Talvez você, da mesma maneira, também tenha sido chutado. Talvez você seja uma pedra que, antes de se tornar realmente bela, precisa ser lapidada. A grande questão é que precisamos reconhecer isso, permitirmo-nos lapidar. É preciso admitir nossas limitações, não importa quão bem façamos algo; sempre poderemos fazer melhor.

Talvez você seja uma estrela, mas ainda não sabe como brilhar.

*Dedicado a Rafael Duran Albino, o citado amigo.

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