quinta-feira, 25 de setembro de 2014

377 - Versos da solidão de uma criança

Mesmo com as cicatrizes que o passado me presenteou, aprendi a seguir em frente. Hoje vivo em paz; mente, corpo, e espirito plenamente saudáveis. Acredito, porém, que se não fosse por uma ou outra diretriz psicológica compreendida na infância, essa minha história poderia ter sido bem diferente. Eu vivi um assunto que a maioria que se depara acaba taxando como irrelevante. Porém, é algo que pode retirar uma pessoa de uma caminhada psicologicamente saudável por toda uma vida ou desviá-la seriamente de seu norte, condenando-a a anos de melancólica existência. Esse mal, esse ato, esse crime recentemente ganhou um nome... bullying.

Eu sinceramente pensava ser assunto irrelevante, mas devido a minha intensa experiência na infância, percebi ser ressabiado com tudo e com todos. Sigo meus dias de guarda fechada como se a todo instante alguém estivesse pronto a me dar pedradas; como se a vida fosse uma eterna competição onde, caso seja derrotado, todos ririam de minha desgraça. Isso acaba transformando o tapa em soco, a gota em chuva, a formiga em monstro. Mínimas provocações podem ser o gatilho a disparar em mim uma exacerbada neurose que nasce no inconsciente e repousa na consciência em forma de fúria. Devido a chacotas na infância fui forçado a criar um escudo psicológico inquebrável e poderoso, o qual fez com que minha personalidade se tornasse forte e precavida. Isto ora me é bom, ora me é terrível. Devido minha eterna desconfiança, tenho a língua ligeira à confrontar tudo de maneira destrutiva, o que me afasta de muitos e me faz perder boas pessoas e agradáveis momentos. E a razão de tudo está em minha meninice, no princípio, na base da estrutura psicológica do meu ser. Eu usava onipotentes óculos de seis graus além de aparelhos nos dentes devido a meus incisivos serem inclinados e grandes. Era assim escarnecido de dentuço, Mônica, quatro-olhos, coelho, e demais. Isso minou minha autoestima e me algemou ao estagno da timidez até os berços da adolescência.

Alguns dizem também terem vivido fazes ruins e nem por isso ficaram marcados, mas cada pessoa é uma pessoa. Cada um vê a vida de maneira diferente. Caricias em um alguém podem ser facadas em outros. Ninguém sofreu com o meu coração; ninguém chorou com os meus olhos.

Hoje, felizmente retornei ao caminho da psique saudável. Talvez por mérito de minha própria mente, ou do amor de minha família, da companhia de bons amigos, das lições de grandes mestres; ou talvez de tudo isso. Mas sinto que até os dias atuais, ao seguir distraído, dou alguns tropicões na caminhada.

Eu já escrevi livros de romance, canções de amor, poemas de bons versos; mas talvez sejam os versos da solidão de uma criança; reflexos literários do sangrar de meus reveses. Em quantos de meus escritos será que essa criança esteve? Será que se fiz tais obras não fora porque ela me inspirou, ou sua sensibilidade fora a base? Na verdade, e até estranhamente, não teria tudo isso acontecido para o meu próprio bem? Será que os dons que hoje tenho não são simplesmente a evolução das dores do passado? Sim, tudo acontece por uma razão, quer você queira ou não; a vida tem os seus segredos.

Devemos domar nossos monstros; deter o mal que em nós encontramos. É o nosso dever; é o preço que pagamos.

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