terça-feira, 3 de maio de 2011

127 - Uma doce advogada (A bruxa de Nevada)



Michelly mergulhou ainda no raso, e logo ficou de pé, parada, sentindo o fluir das águas, ouvindo o som afável do oceano. Foi então que ele novamente se achegou a ela:
            - Michelly...
            - Não! - virou-se a ele e apontou - Não digas nada galanteador mancebo! Apenas ouça! - seguiu falando, dando voltas ao redor dele, num tom frio, enquanto sentiam as águas do mar batendo em suas pernas em meio aquela penumbra salva pelo brilhante luar - Thomas Jackson! Traíste-me! E este é o fato! Todavia, não penses tu que sou mais uma entre as milhões de jovens abobadas e sem maturidade, as quais só pensam em si mesmas, e assim, confundem amor com um sentimento possessivo medíocre e egoísta! Elementar meu caro! De criança há tempos já passei, com a graça do Bom Deus! - deixou-se cair de costas nas águas a fim de se molhar um pouco mais. Logo voltou - Relevemos, pois, o vosso caso! Em meu discernimento, sinto que Gabriella fora a única...

            - Sim! Foi...
            - Silêncio! - gritou apontando com firmeza - Gabriella Stuart é uma garota extremamente linda! Eu admito! Menina charmosa e sedutora, além disso! Veja, pois, que tentação! - pausou - Mas não é somente isso! Você ainda mora na mesma casa que ela! E com outras três garotas, também lindas! - fez-lhe um gesto de silêncio, ficando agora de costas para ele - A julgar também o seu caráter, creio para mim que a investida partira sempre dela! Correta estou?
            - Sim! Isso mesmo! - ainda assombrado.
            - Protesto excelentíssimo juiz! - gritou apontando para a enseada como se alguém estivesse lá - Adicionemos a esta “tentação” o fato de Thomas, o réu, trazer no coração uma triste e dolorosa carência devido aos fatos da adolescência que a pouco eu expliquei. Adicionemos também o fator “distância” o qual nós dois sentimos na pele o quanto é doloroso! - pausou e olhou agora para o céu estrelado - Sendo assim! Temos: Tentação, carência, e distância. Veja só como encontramos grandes argumentos de defesa para esta sua “causa”! Sim! - olhou para Thomas - Sei que eu daria uma advogada extraordinária! - riu, voltando-se ao céu, tornando assim a olhar o horizonte e a caminhar - Senhores jurados! - apontou para seres imaginários, os quais supostamente estavam também na enseada - Apesar destes meus esplêndidos argumentos, adicionarei aqui ainda mais alguns fatores.

            Thomas percebeu que em sua inteligência, Michelly, além de certamente estar explicando algo importante ao relacionamento, unira o útil ao agradável, fazendo agora aquela encenação de Direito, a fim de estimulá-lo quanto a matéria, para que assim ele realmente retornasse a faculdade no ano seguinte. Ela seguiu:
            - Verificamos que o “acusado” é portador de um considerável sentimento de carência. Sabemos, nós, que somos adultos, o quanta a “maturidade” falta aos jovens! Estes, não conseguem ainda se darem com seus próprios sentimentos, sendo assim, muitas vezes vítimas de suas ingenuidades. Todavia, BASTA... - bateu o pé nas águas e começou a falar com pulso firme aos jurados imaginários - Tendo ou não ter sido imaturo, o réu ainda dispõe de todos os outros fatores mencionados aqui por mim! Sendo que... - levantou uma mão - Em contrapartida, o mesmo provara uma honrável fidelidade, se abstendo de vários outros prazeres, e sentindo ainda na pele a dor das saudades do triste distanciamento daquela que tão bem satisfazia seus desejos! - finalmente o olhou de maneira sensual, terminando sua “defesa”, andando ainda entre as águas em sua direção, o encarando - Sendo assim meritíssimo! Encerro-me! Sendo estas minhas claras evidências em defesa ao réu a partir de um olhar humano, o qual em si mesmo, deve ser tolerante devido a natureza errante da própria humanidade. Muito obrigado!



*Fragmento do Cap.36 do livro "A Bruxa de Nevada" - Adrian Mcoy



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